Entrevista
Nem fim do mundo, muito menos resfriado

A crise financeira está aí, mas não deve ter os desdobramentos imaginados por alguns especialistas. Para o professor Cláudio Felisoni de Ângelo, os impactos sobre a economia real tendem a ser menores em função do trabalho coordenado pelos bancos centrais dos países do Primeiro Mundo Felisoni

Uma das maiores autoridades sobre varejo do País, o professor Doutor Cláudio Felisoni de Ângelo, não nega que a crise terá seus efeitos a partir do ano que vem, mas, mesmo assim, aposta em crescimento para 2009: “O que nós vamos assistir é uma redução do ritmo de expansão, mas não um processo recessivo como inicialmente se imaginou”, avalia. Idealizador e presidente do Conselho do Programa de Varejo (Provar), Felisoni acredita que um dos principais problemas das lojas de material de construção é a informalidade. Para ele, essa característica inibe novos investimentos internacionais na área.

Sincomavi em Revista - Os primeiros números coletados mostram que ainda a crise financeira não chegou ao varejo. Qual a impressão do senhor sobre essa situação?
Cláudio Felisoni de Ângelo -
Essa é uma crise de confiança, de difícil previsão e limites indefinidos. Entretanto, o que nós observamos este ano foi um crescimento do varejo com uma taxa bastante eleva até outubro, em média 9%. Parecido com o resultado obtido em 2007. É verdade que as condições vêm mudando em função da difusão da crise financeira na econômica real. Isso ocorre notadamente em alguns segmentos, como de bens duráveis, que tem alto componente associado ou atrelado ao câmbio: eletroeletrônicos, automóveis, etc. Esses produtos tiveram seus preços majorados. Além disso, nós tivemos aumento da taxa de juros na ponta e encurtamento nos prazos de pagamento, o que certamente resultou numa desaceleração das vendas. No entanto, os reflexos da crise financeira ainda não se fizeram sentir na economia real. Os indicadores de confiança do consumidor continuam bastante auspiciosos.

SR – As vendas de final de ano serão prejudicadas?
Felisoni -
Um levantamento que fizemos para este natal indica que as compras deverão se situar num patamar, pelo menos a intenção, parecido com o ano passado. O que nós esperamos é que, como grande parte das vendas ocorre em dezembro, os reflexos da crise só serão sentidos com um pouco mais força nas proximidades do Natal. Ou seja, não haverá tempo para comprometer substancialmente as vendas deste ano. Estamos vendo uma tentativa muito grande de escoamento dos produtos. Portanto é de se esperar que a partir de janeiro deva ocorrer um refluxo maior nas atividades comerciais. A expectativa  é que esse refluxo não seja tão intenso quanto se imaginou em função das ações dos bancos centrais de forma coordenada, que acabarão por mitigar os impactos dessa crise. Isso não significa que ela seja um resfriado, mas que estes impactos foram bastante amortecidos por uma ação coordenada por parte, principalmente, das economias dos países desenvolvidos. Por exemplo, a economia chinesa que se estimava um crescimento de 11%, ao que tudo indica, deverá crescer ainda 9%, segundo as melhores previsões de especialistas em comércio internacional. O que nós vamos assistir é uma redução do ritmo de expansão, mas não um processo recessivo como inicialmente se imaginou.

SR – Qual o impacto da crise no varejo de material de construção?
Felisoni –
Esse segmento, pelas próprias características, será pouco afetado. Esse setor não tem variação atrelada à moeda estrangeira, câmbio. Pelo contrário, acredito que possa até de alguma forma se beneficiar na medida em que estes produtos disputam o mesmo bolso. Ou seja, o mesmo bolso tem de prover recursos para a compra de eletroeletrônico, cine-foto, toalhas de banho, etc. Há movimentos contrários no que diz respeito a investimentos na casa. Com grande freqüência a compra de eletroeletrônicos ou automóvel compromete a aquisição de bens das lojas de material de construção, com modernização ou ampliação da casa.

SR – O senhor acredita que o varejo de material de construção conseguiu aumentar o nível de profissionalização nos últimos anos?
Felisoni -
Está mudando, mas ainda é um segmento pouco organizado. Dos setores do comércio, é um dos que conta com maior nível de informalidade. A dificuldade de grandes empresas virem para o Brasil, como a Home Depot, entre outras, diz respeito a esse grau de informalidade.

SR – O alto nível de quebra operacional e de furtos internos são alguns dos sintomas dessa dificuldade de organização?
Felisoni -
Na verdade, o que acontece: o varejo se tornou cada vez mais competitivo, os preços na ponta foram espremidos pela concorrência. Isso faz com que as margens estreitadas exijam operações mais eficientes. As organizações, todas elas, desde o supermercado, passando por materiais de construção, têm uma preocupação cada vez maior com essas perdas operacionais, não só relacionadas a furtos e roubos, mas também com manipulação das mercadorias e falta de capacidade de funcionários em realizar operações delicadas. Tais fatos provocam prejuízos que vão contribuir para a redução da margem.

SR – O senhor acredita que a substituição tributária reduzirá progressivamente a informalidade?
Felisoni -
Acho que sim. No entanto, o que o País carece é de uma reforma tributária que permita aumentar a base e reduzir os custos para as organizações individualmente. Ampliando essa base, fazendo com que os impostos, sejam mais justos, que recaiam mais sobre o lucro, que é o valor adicionado e não sobre o faturamento. Isso acaba gerando impostos em cascatas e, com isso, todos os custos associados a carga tributária se ampliam.

SR – Quais os principais erros cometidos pelos lojistas de material de construção?
Felisoni -
Tem um dado muito interessante registrado por uma pesquisa da Provar e da Felisoni Consultores Associados. Fizemos a primeira edição em 2000 e reeditamos esse estudo no começo desse ano. Entre os dados coletados, está a resposta ao pedido para os consumidores classificarem e avaliarem o grau de conhecimento do vendedor em relação aos produtos comercializados. Esse grau de conhecimento variava entre ruim e ótimo. Cruzamos essa informação com o tíquete médio. Ou seja, quanto o sujeito gastou. Em números redondos: de ruim para ótimo o ticket médio subiu sete vezes. Em outras palavras, o tíquete médio das pessoas que avaliaram a classificação do vendedor como ótima é sete vezes maior do que o tíquete médio dos clientes que avaliaram os vendedores com nível de conhecimento considerado ruim. E para um setor que é eminentemente técnico, como o setor de material de construção, essa informação é fundamental.

SR - O senhor teria uma indicação para leitura?
Felisoni -
Acho que a leitura, cada vez mais, a profissionalização das empresas é um objetivo absolutamente essencial para que a empresa atinja os seus objetivos, sobreviva nesse mercado.  Não tem um livro específico. As pessoas devem buscar informação lendo sua revista, ler os jornais do dias. Até mesmo pessoas importantes, lideranças, acabam sendo muito mal informadas sobre os acontecimentos, sobre o que está acontecendo no mundo. Exige-se hoje uma posição mais aberta, menos orientada só para umbigo, olhando para o mundo. Uma empresa dificilmente sobreviva num outro cenário. Mais aberto.

 

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