|
|
 |
Entrevista
Falta educação
O Brasil sempre foi reconhecido por suas belezas naturais, talento para o futebol e grande capacidade para lidar com a adversidade, e não tanto por sua produção intelectual, resultado direto de uma educação básica deficiente. Entre os poucos pensadores nacionais com destaque internacional está o filósofo, economista e escritor Eduardo Gianetti da Fonseca, dono de opiniões claras, balizadas em uma análise profunda do homem e da sociedade brasileira. Autor dos livros “A Ilusão da Alma”, lançado no ano passado, e “Valor do Amanhã”, que trata das escolhas e o planejamento em todos os aspectos da vida, Gianetti, em entrevista à Revista SINCOMAVI, analisa e comenta o atual momento econômico do País, a falta de investimento em educação, seu trabalho e alguns aspectos recorrentes do povo brasileiro, como os extremos em se autoavaliar: “Quando as coisas vão mal é um pessimismo exacerbado - o último a sair apaga a luz do aeroporto. Quando vão bem é um ufanismo totalmente desconectado da realidade”, afirma.
Pensamento
Desde muito jovem eu tive uma aspiração de poder contribuir com uma reflexão abrangente sobre a condição humana e os problemas éticos. Eu comecei minha trajetória pelo campo da economia, mas à medida que amadurecia, fui abrindo novas possibilidades de atuação. Eu me direcionei mais para temas ligados à reflexão filosófica. A minha obra é muito essa busca de uma reflexão em torno dos problemas da existência humana e da vida prática: felicidade, autoengano, preferências em relação ao tempo, a relação entre o cérebro e mente. No fundo o que importa é entender melhor o que nos torna humanos e o que nos leva agir como nós agimos. Eu penso também muito na formação de crenças, como é que chegamos a acreditar no que acreditamos, que caminhos nos levam a adotar determinados pontos de vista, opiniões com morais, valores, preferências estéticas. Como se dá o processo de formação de crenças. Outro tema que me interessa muito e que tenho pesquisado há várias décadas diz respeito a comunicação e a transmissão de ideias. Como se dá o processo de pressão, por meio de palavras, de entendimento do leitor e do receptor - aquele que está sendo comunicado. Eu pensei muito a questão de que o autor não controla o significado de sua obra, porque quem estabelece o significado de um pensamento é o leitor, o receptor. Na verdade, se você for pensar em termos de economia, o entendimento não é dado pela oferta, mas ele é fixado pela demanda.
Influência
Eu já passei por muitos autores na minha vida e depois descobri que tinha de pensar por conta própria em vez de ficar na exposição sedentária de teorias alheias. Entre os autores que me influenciaram muito, mais ou menos pela ordem, foram: Karl Marx, Frederich Nitzsche, David Hume e Adan Smith. Esses quatro são autores que me acompanham há muito tempo. E agora estou muito interessado num autor do iluminismo francês, chamado Diderot. O Nitzsche teve várias fases, o período que eu me refiro é o iluminista, das obras Humano Demasiado Humano, Aurora e Gaia Ciência. Na minha avaliação, são as três obras de maior acuidade analítica do Nitzche. Depois, ele foi enlouquecendo e se tornou um profeta bufão.
Complacência
O Brasil está passando por um momento muito positivo do ponto de vista econômico. Alguns chegam a dizer que é um momento mágico, extraordinário. De fato atravessamos muito bem a crise global de 2009, mas temos que tomar muito cuidado com a complacência e com a ideia de basta manter tudo como está para que a economia alcance a prosperidade que nós almejamos. O grande perigo hoje no Brasil é a complacência. É achar que nossos problemas de fundo foram resolvidos. Quem estuda história da economia sabe que o Brasil já passou em outras oportunidades por momentos que parecia também condenado a se tornar um país desenvolvido e nada nos afastaria desse caminho. Não foi o caso.
História
Tivemos a euforia juscelinista, segunda metade dos anos 50, e também o período da metade dos anos 70, no qual o general Geisel dizia que o Brasil era uma ilha de prosperidade num mar turbulento. Muito parecido com o quadro que se tem hoje. Poucos anos depois, o Brasil se tornou uma ilha turbulenta num mar de prosperidade. Eu espero que não se repita esse enredo.
Excessos
Eu costumo dizer que o Brasil não era tão ruim antes, mas também não é tão bom agora. Nossos problemas de fundo, a começar pela carência de capital humano, continuam rigorosamente os mesmos. O grande desafio secular do País é a formação de recursos humanos - a educação de qualidade. Começando da pré-escola, ensino fundamental, até o superior. Nós deveríamos ter a maturidade e inteligência para aproveitar esse bom momento para atacar de fato, de forma muito consistente, essa grande deficiência da vida brasileira, que é o descaso com que tratamos há tantos séculos a formação humana. Eu não estou vendo realmente o País atento e agindo no presente para construir o seu futuro no quesito capital humano.
Povo
Continuamos um País muito ciclotímico. Quando as coisas vão mal é um pessimismo exacerbado - o último a sair apaga a luz do aeroporto. Quando vão bem é um ufanismo totalmente desconectado da realidade. A imaginação brasileira flutua muito mais do que a realidade complexa. E o país vive muito ao sabor dessas ondas de otimismo e pessimismo, sem fixar sua atenção numa ação consistente de preparação para viver melhor no futuro.
Jeitinho
Tudo tem prós e contras. Por um lado nos dá uma capacidade de lidar com a adversidade sem cair na depressão ou no desespero. Por outro lado, nos leva a uma acomodação. É muito difícil no Brasil mobilizar energia, esforços, para obter resultados no longo prazo. Isso não é só problema do governo, mas da sociedade brasileira. Então prevalece uma acomodação de circunstâncias, de curto prazo, vivendo com um horizonte temporal muito estreito. Acabamos prejudicando a construção de uma civilização brasileira mais ordenada, mais equilibrada, e que valorize mais o que há de realmente importante na vida que é a formação educacional.
Há um deslumbramento com a tecnologia e o consumo fácil, mas não é isso que engrandece uma cultura. O Brasil não vai ser o país dos meus sonhos, enquanto não florescer naquilo que realmente importa: a educação, a criatividade, a convivência dentro de padrões éticos, representação política. 53% do eleitorado na última eleição não tinha o ensino fundamental completo. Isso prejudica enormemente a qualidade do processo democrático brasileiro. São pessoas com pouca capacidade de formar e de fazer escolhas pautadas por um padrão de conhecimento. Acabamos elegendo um congresso e governantes que refletem em certa medida essa precariedade da base da sociedade brasileira.
Política
O início da administração Dilma é a continuação do fim do governo Lula. Por um lado isso é bom, porque não existem grandes sobressaltos. Por outro lado, perde-se uma chance de tomar iniciativas que seriam relevantes para melhorar as condições de vida e produção no Brasil. Especificamente com reformas nas áreas tributária, trabalhista, previdenciária. São muito importantes hoje para melhorar a competitividade e o crescimento possível da economia brasileira.
Vale tudo
O exemplo não favorece a construção de um país mais ético. E o ex-presidente Lula passa de certa forma até sub-repticiamente uma ideia de que a educação não é importante. De que se você for esperto, se você tiver um pouco de carisma, certo jogo de cintura e uma capacidade diferenciada de comunicação com o público, você cresce como líder, como profissional. Eu acho que essa postura não é muito boa como exemplo, como símbolo para sociedade brasileira. O País precisava no fundo de um Juscelino, do capital humano. Alguém que infundisse e incendiasse na imaginação brasileira o valor da educação, do conhecimento, da pesquisa, da produção calcada na inteligência e não na sorte.
Filosofia
Ela pode contribuir por meio do questionamento, da crítica, visão fria, análise da situação, sem se deixar se levar por oscilações fantasiosas de perspectivas otimistas ou pessimistas. Eu acho que a filosofia deve buscar uma postura de objetividade, de sobriedade, de conhecimento da realidade, mesmo que isso fira um pouco o nosso narcisismo patriota.
Como indicação de leitura, recomendo o livro “O que os economistas pensam sobre sustentabilidade”, organizado por Ricardo Arnt, que reuniu um time de economistas brasileiros para refletir, com perguntas muito bem formuladas, sobre os desafios da sustentabilidade. Um tema especialmente relevante ao Brasil em razão de seu patrimônio ambiental e sua biodiversidade. Outra obra é “Demografia – A Ameaça Invisível”, de Fábio Giambiagi e Paulo Tafner. Uma análise relevante das principais tendências demográficas que prevalecerão nas próximas décadas no Brasil, que está passando por uma transição de enormes proporções, não está suficientemente atento para isso e muito menos agindo no presente tendo em vista esse futuro.

|
|
|