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Entrevista
São Paulo merece um centro de exposições melhor
Apesar das melhorias promovidas no Anhembi, Juan Pablo de Vera considera o local aquém do potencial de negócios de São Paulo
Da infância no Uruguai, ele guarda apenas as brincadeiras, o contato com a natureza e as coisas simples da vida. Nascido nas adjacências de Montevidéu, Juan Pablo de Vera, presidente da Reed Exhibitions Alcantara Machado, partiu para Buenos Aires, Argentina, ainda pequeno, com apenas 6 anos, cresceu, se formou em Administração e pós-graduou em direção de empresas. No entanto, seu maior desafio estava reservado para ocorrer em terras brasileiras: assumir o cargo de Diretor Geral da Reed Exhibitions Brasil em 1995. O reconhecimento de seu trabalho foi coroado em 2004, quando recebeu o Prêmio “Chairman Award”, que a empresa oferece aos destaques dentre seus 2.600 executivos dos 39 escritórios ao redor do mundo. No Brasil, Juan Pablo se deparou com a diversidade de sabores, cores, sons e pessoas, o que torna, segundo ele, uma combinação única. “Depende de cada um de nós saber encontrar seu equilíbrio no meio dessa aquarela multicolor”, ressalta. Em sua opinião, é muito fácil se adaptar ao País, mas deve-se saber adotar novas formas para conseguir se encaixar na cultura nacional e aproveitar tudo o que o Brasil tem de bom. “Isso fica bem mais fácil graças à qualidade e carinho do povo brasileiro”, resume. Em entrevista exclusiva ao SINCOMAVI em Revista, Juan Pablo fala um pouco sobre sua vida, os planos para a Feicon 2009 e como tem sido a recepção dos expositores às mudanças promovidas pela Reed.
SINCOMAVI em Revista - Quais as novidades que a Reed Alcântara Machado está preparando para a próxima edição da Feicon? Haverá muitas mudanças no pavilhão de Exposições do Anhembi?
Juan Pablo de Vera - O objetivo da Reed Exhibitions Alcantara Machado é manter o mesmo padrão de qualidade em todas as nossas feiras ao redor do mundo. Para a FEICON BATIMAT 2009 estamos trabalhando fortemente a divulgação internacional, bem como implementando ferramentas de marketing que contribuam para o retorno cada vez maior de nossos expositores. Queremos cada vez mais qualificar o nosso público visitante/comprador, o que gera um retorno ainda mais positivo aos participantes.
Quanto ao Anhembi, tivemos um ganho de cerca de 800 metros quadrados de área, com a demolição do antigo mezanino Sul, e estamos atuando junto aos administradores (SP Turismo) e a outras empresas usuárias reunidas na Ubrafe (União Brasileira dos Promotores de Feiras) para que as melhorias necessárias possam ser realizadas com a maior rapidez possível. O nível de desenvolvimento que as expositoras tem apresentado não é compatível com a qualidade da infra-estrutura que o Anhembi apresenta. A cidade de São Paulo merece um centro de convenções e exposições de acordo com seu potencial e estamos trabalhando junto às autoridades municipais para ajudar nesse sentido.
SR - Até pouco tempo se falava na construção de um novo centro de exposições na Zona Oeste da capital. A prefeitura de São Paulo tem realmente planos nesse sentido? Como o senhor avalia tal possibilidade?
Juan Pablo - A criação de um novo centro de exposições de grande porte na capital paulista seria de grande importância para todos os promotores de feiras, visto que hoje não temos muitas opções. Realmente foi apresentado pelo prefeito Gilberto Kassab um projeto de ampliação de todo o complexo do Anhembi, mas sinceramente não tenho informações sobre o andamento do mesmo. Somos usuários de mais de 100 centros de exposições ao redor do mundo, e realmente sentimos a diferença. Ficamos muito entusiasmados ao saber desta iniciativa. Aguardamos a idealização desses empreendimentos para continuar a garantir o crescimento de nossos negócios e a melhor qualidade de serviço para nossos clientes.
SR - Foi possível perceber várias modificações na organização da Feicon deste ano. Essas alterações são fruto da maior presença da Reed ou do desenvolvimento natural da exposição? O que se pode esperar para as próximas edições?
Juan Pablo - Como disse anteriormente, temos um padrão de qualidade que desejamos manter em todos os nossos eventos, o que contribui com o desenvolvimento e, conseqüentemente, o aperfeiçoamento de vários processos do evento. Quanto melhor a sinalização do Pavilhão - esta é uma das nossas preocupações -, mais fácil a locomoção de nossos compradores e expositores. Queremos tornar o Pavilhão de Exposições em um local realmente propício para os negócios. Também temos como meta aumentar a visitação internacional, propiciando a nossos expositores brasileiros a abertura de negócios em outros mercados. Além disso, ao longo deste ano, estamos trabalhando fortemente a melhoria nos serviços de limpeza geral, alimentação e atendimento aos nossos clientes. Acredito que estamos realizando um trabalho bastante positivo, mas que ainda não pode ser considerado excelente. Mas, sem dúvida nenhuma, a cada ano estará melhor e nossos expositores perceberão essas mudanças. A Feicon Batimat é uma feira de um potencial enorme e merece o melhor.
SR - Como tem sido a recepção de expositores, público e entidades de classe a essas mudanças?
Juan Pablo - Toda mudança apresenta desafios, mas quando falamos de melhoras para dar maior suporte à visita de compradores ou garantir padrões de qualidade no atendimento aos expositores, a receptividade é muito positiva. Expositores e entidades de classe têm mostrado confiança em nossa equipe e em nossa capacidade de concretizar essas mudanças em soluções concretas. Quanto aos visitantes, realizamos pesquisas de qualidade desde abril de 2007 e estamos conseguindo entender melhor as demandas e os serviços que conseguimos apresentar nestes primeiros 8 meses de gestão e já estão trazendo resultados surpreendentes. Provavelmente algumas dessas melhoras não sejam visíveis para alguns, mas, por exemplo, o investimento realizado em tecnologia para facilitar e agilizar o serviço de credenciamento já está trazendo resultados, diminuindo o tempo de espera na entrada para o evento, além de aumentar a quantidade de profissionais pré-credenciados de nossas Feiras. Segundo resultados, desde abril de 2008 nossas medições de qualidade já estão no nível internacional.
SR - Gostaria que o senhor desse detalhes sobre a atuação da Reed no mundo e o interesse da empresa em aumentar sua presença no mercado brasileiro?
Juan Pablo - A Reed Exhibitions é a principal organizadora de eventos do mundo. Em 2007, a Reed reuniu mais de 6 milhões de profissionais da indústria ao redor do mundo, gerando bilhões de dólares em negócios. Hoje, os eventos da Reed estão presentes em 38 países, distribuídos pelas Américas, Europa, Oriente Médio e Ásia e organizados por 39 escritórios próprios. O portfólio contém mais de 500 eventos que atendem 47 setores da indústria, abrangendo: aeroespacial e aviação, automotivo, construção, eletrônicos, energia, engenharia, entretenimento, meio ambiente, alimentação e hospitalidade, presentes, saúde, TI, jóias, ciências naturais e farmacêutica, propriedades/imóveis, manufatura, máquinas e equipamentos, educação médica, embalagem e transformação, impressão e comunicação visual, esporte e lazer, segurança e turismo.
No Brasil, atualmente, a companhia realiza mais de 34 eventos. No início da joint venture eram 23. Para aumentarmos nossa presença no Brasil, temos como meta dobrar os negócios nos próximos três anos. Inicialmente, esse tempo era de cinco anos, mas ao revisarmos nossas metas, tivemos a grata surpresa de já ter crescido 50% no volume de feiras de 2007 para 2008.
SR - Depois de alguns anos com vento a favor, a economia mundial começa a dar sinais de redução na velocidade de crescimento. Em sua opinião, como isso, o aumento de preços de mercadorias e a elevação da taxa Selic afetarão a construção civil brasileira nos próximos meses? O mercado já começa a sentir esses efeitos?
Juan Pablo - Os problemas na economia mundial, como você mesmo citou acima, de uma certa maneira contribuíram para o aquecimento do mercado nacional. Como, por exemplo, o crédito da poupança para imóveis que cresceu 86% no primeiro semestre deste ano. Isso sem contar que a classe média brasileira já é a maioria no País, contribuindo para o avanço nas relações do mercado com seus consumidores e vice e versa. Acredito que tanto a construção civil brasileira, bem como o setor imobiliário, tendem a continuar no mesmo patamar de crescimento nos próximos anos.
SR - Como o senhor vê o esforço do Governo Federal em incentivar a Construção Civil no País? O que poderia ser feito na área governamental para melhorar o desempenho do setor?
Juan Pablo - Creio que todas as medidas tomadas até agora, como a redução no ICMS (Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) incidente sobre os materiais de construção nos Estados e o aumento de financiamentos destinados ao setor da construção, foram benéficas; é claro que ainda há muito o que fazer. Acredito que o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) possa contribuir para o desempenho ainda maior desse setor, assim como a criação de novos sistemas de crédito e a redução de impostos sobre os produtos do setor, mas esse é um assunto que deve ser discutido com mais propriedade por empresários do segmento. Só eles sabem realmente quais as reais necessidades e quais seriam as melhores soluções.
SR - Qual a sua opinião sobre o varejo de material de construção brasileiro? Quais são as suas principais deficiências e virtudes?
Juan Pablo - Na minha opinião, esse mercado mudou bastante nos últimos anos, possibilitando o acesso fácil, em especial, às pessoas de baixa renda. As formas de financiamento, bastante usadas por grandes e até pequenas lojas, contribuíram muito para o crescimento desse setor, uma vez que 77% das unidades habitacionais produzidas no Brasil são em regime de auto-gestão, segundo estudos efetuados pela empresa americana de consultoria Booz Allen Hamilton. Ou seja, os brasileiros, que, por algum motivo, ainda não têm como adquirir seu imóvel financiado, procuram de uma certa maneira, e aos poucos, comprar o material básico e, com a ajuda dos vizinhos ou terceirizando o serviço, constroem um cômodo, a própria moradia ou reforma-se a antiga. O que vocês mesmo chamam de consumo “formiga”.
SR - Existe uma grande participação de entidades de classe na Feicon Batimat. Qual sua avaliação em relação a essas organizações e como elas poderiam aperfeiçoar suas atuações?
Juan Pablo - Sem dúvida nenhuma o apoio das principais entidades de classe é fundamental para o sucesso de todo e qualquer evento. Em especial na Feicon Batimat, temos cerca de dez importantes associações ligadas a nós. E cada uma tem sua forma própria de atuar perante seus associados. Gostaria de deixar registrado meu particular respeito a todas elas a começar pelo SINCOMAVI, Anamaco, Abimaq, Abimaco, Abrafat, Abramat, Afeaço, Amessp, Anicer, Siamfesp e Fecomercio.
SR - O que o senhor faz nas horas vagas? O senhor tem alguma sugestão de leitura para os comerciantes?
Juan Pablo - Gosto muito de curtir minha família e amigos. Cada vez mais as demandas profissionais nos deixam pouco tempo para cuidar de nossos afetos. Minha família e meus amigos são os principais valores e servem de recarga de energia para continuar o desafio de melhorar a cada dia. Gosto muito de ler e, particularmente nestes dias, estou lendo uma série de livros que servem de ajuda para a execução de nossos planos de negócios. Um deles é a Arte de Fazer Acontecer, de David Allen, e um outro, O líder criador de Líderes, de Ram Charam. Para os comerciantes gostaria de recomendar o livro “A estratégia do Oceano Azul”, de W. Chan Kim e Renée Mauborgne. Ele realmente oferece algumas dicas muito interessantes de como replanejar nosso negócio quando a concorrência fica muito acirrada e parece que não temos opções para crescer.
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