Perspectiva 2012
Otimismo prevalece
O Brasil conseguiu superar muitos obstáculos este ano. Para 2012 as expectátivas não são diferentes, principalmente em razão das incertezas pelas quais atravessam os mercados europeu e norte-americano. Confira aqui a opinião de economistas e liderenças do setor. Edição completa.

Antônio Carlos Borges
Diretor executivo da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP)

Balanço
O crescimento do PIB será de 3%, contra os 7,5% do ano passado. O consumo das famílias vai crescer entre 5% e 6% no Brasil e algo como 3% em São Paulo. Ou seja, um ano bastante parecido com o de 2010, porém com um desempenho mais modesto. Essa redução de patamar de crescimento em 2011 se deve, em parte, ao efeito base ter crescido muito no ano anterior, o que restringe o crescimento no ano seguinte, mas também é efeito das políticas de aperto monetário e de crédito adotadas no final do ano passado. Os efeitos foram esses: redução da propensão a consumir e a investir. De qualquer maneira, o ajuste parece ter sido suave e o Banco Central naquele momento, junto do governo, atuou com medo de uma expansão forte dos preços. Contudo, o crédito, a renda e o emprego ainda vão crescer neste ano. Entretanto a situação teria sido outra se a economia mundial não tivesse sofrido os impactos subsequentes à crise de 2008 e o motor do crescimento chinês não estivesse a pleno funcionamento. Como se vê, para que tenhamos segurança quanto ao crescimento contínuo ainda precisamos melhorar e muito as condições fiscais, administrativas e burocráticas de nossa economia.

Obstáculos 
Ao contrário de 2011, o ano de 2012 começa desacelerado e retoma o crescimento a partir do segundo ou terceiro trimestre. Neste momento, o Banco Central inverte a lógica de sua política monetária e, prevendo um desaquecimento acima do desejado no futuro próximo, começa a reduzir juros. Claro, a crise nos países desenvolvidos também motiva essa preocupação do governo com o nível de atividade nos próximos meses. Exatamente por isso que o ano de 2012 deve ser parecido com este em termos de crescimento, com 3% a 3,5% para o PIB e 4% para o consumo/varejo, com o diferencial que deveremos ver a segunda metade do ano mais aquecida do que a primeira. Esperamos a manutenção do emprego e do crescimento da renda, assim como um bom desempenho para o mercado de crédito no Brasil, pois não vemos riscos elevados de crise de liquidez ou de uma explosão de inadimplência. O que pode comprometer esse cenário é a crise da Europa, se as dívidas de países como Grécia, Itália, Irlanda, Espanha ou Portugal sair de controle. Todavia essa parece uma hipótese pouco provável.

Necessidades 
Algumas medidas o governo já está adotando, como reduzir a taxa de juros. Mas existe um arsenal bem grande de medidas que pode ser utilizado, segundo a necessidade, como redução de compulsórios, de impostos e alíquotas menores de IPI, por exemplo, e mesmo atuar sobre o câmbio se e quando for necessário, dado o volume de reservas que o País detém hoje. De qualquer maneira não há milagre a ser feito, e se a crise europeia sair de controle, nada disso impedirá que sintamos os seus efeitos. Como nosso cenário é mais otimista do que isso, acreditamos que o governo e as autoridades econômicas vão conduzir o nível de atividade para que o País retome o crescimento acima dos 3% ao longo de 2012, sem traumas. Em 2013 poderemos novamente ter um ano de forte crescimento econômico, após os ajustes neste período.

Varejo
O consumo das famílias tem crescido mais do que o PIB, e parte dessa demanda chega ao balcão. O consumo de serviços também está crescendo mais rapidamente do que o PIB. Para 2011 e 2012, espera-se que o consumo mantenha o crescimento acima do PIB e que o varejo acompanhe esse fato. Em 2011 o varejo no Brasil deve crescer entre 6% e 7% e em São Paulo entre 3% e 4%. O que pode atrapalhar o varejo é exatamente o mesmo que pode atrapalhar a economia. O varejo, a rigor, é um excelente termômetro de como vai o emprego, a renda e, principalmente, a confiança dos consumidores e dos empresários na economia. Em 2012, o varejo pode crescer os mesmos 6% no Brasil e talvez 5% em São Paulo, mas ainda há mais dúvidas do que certezas quanto ao desempenho setorial.

Cuidados 
Em primeiro lugar os comerciantes e todos os empresários devem buscar se informar. Acompanhar a conjuntura, buscar números, entender causas e efeitos econômicos, para poderem conduzir mais facilmente seus negócios em situação de incertezas. Essa é a regra do jogo e não é recente: quem não se informa, é tragado pelos acontecimentos. O problema é que agora o mundo está mais rápido, e não há muito tempo para reação. O empresário tem que estar preparado, antecipar os fatos é seu jogo. Reagir ao evento dado muitas vezes não funciona mais.  O risco é o de se buscar informações randomicamente, em todos os portais e sites, e não conseguir digerir o volume, a avalanche existente de dados. Sugerimos a parcimônia, a busca pelos dados mais importantes, e caminhar para detalhes somente quando já se compreenderam o todo, e avaliar as peculiaridades de cada setor. A Fecomercio-SP busca sempre manter em seu site as informações mais relevantes, expostas de maneira simples e objetiva, para fácil e rápida leitura. Não adianta nada ter modelos matemáticos supersofisticados que são intangíveis e incompreensíveis para a maioria das pessoas e que trazem informações quase idênticas ao que você obteria de forma mais simples e sem ter que recorrer a um tradutor. 
O importante é ter em mente que, daqui para frente o mercado estará mais profissional e melhor informado,  com dados de melhor qualidade que quantidade, pois ninguém tem tempo de ler tudo que surge na tela. O empresário e os mercados vão lidar com a volatilidade constante, e a mudança é a regra e não mais o fenômeno eventual, como no passado. Também é importante saber que o mundo é realmente uma pequena aldeia quando se trata de negócios, e o Brasil está inserido definitivamente nesse ambiente. Medidas adotadas em qualquer país podem trazer enormes efeitos para a sua empresa. Bons ou ruins vai depender de seu posicionamento e de sua habilidade em entender os fenômenos à sua volta.

 

Claudio Felisoni de Angelo
Presidente do IBEVAR – Instituto Brasileiro de Executivos do Varejo e do Mercado de Consumo, professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e Sócio fundador da Felisoni Consultores Associados

Análise
A situação nacional no contexto da crise que vem assolando a economia mundial é, pelo menos até aqui, relativamente confortável. De fato o Brasil deverá completar este exercício com uma expansão do produto da ordem de 4%. Os Estados Unidos deverão registrar uma expansão de menos de 1,5% e a Europa, por sua vez, segundo as últimas avaliações não mais que 1%. Mais uma vez, assim como aconteceu em 2008/09, o mercado interno tem sido o grande responsável pela sustentação da demanda agregada.

Previsão
As condições para 2012 serão também para o Brasil menos propícias, que as que vigoram em 2011. O Brasil depende evidentemente do desempenho da economia mundial, principalmente, do nível de atividade da economia chinesa. Ocorre que a desaceleração não será pequena. Os dados referentes ao ajuste das economias europeias dão como certo uma redução significativa do nível de atividade. Os governos da Europa têm qualificado os próximos anos como: “a década perdida”. 

Impactos
Para que o Brasil enfrente essa situação é necessário que continue baixando a taxa básica de juros. Entretanto, isso só poderá ser feito se governo reduzir o gasto público e melhorar a qualidade do dispêndio. 

Comércio interno
O varejo tem crescido vigorosamente desde 2004. Nesse período nada menos que 30 milhões de pessoas emergiram das classes “D” e “E”, menos de quatro mínimos, para uma posição na faixa intermediária da distribuição de renda, ou seja, classe “C” (entre quatro e dez mínimos).  Nos próximos anos é possível manter essa tendência, evidentemente não com a mesma intensidade. Contudo é essencial que o governo mantenha a credibilidade da política macroeconômica abrindo cada vez mais espaço para a expansão dos investimentos.

Concorrência
A competição no varejo tende a aumentar por dois motivos. Primeiro porque esta é a direção natural em razão da queda dramática dos custos de informação - quase tudo está a um clique do consumidor final. Segundo,  onde falta o pão todos brigam e ninguém tem razão. Não é um cenário pessimista, mas sim, realista. O varejo continuará dando sinais de vitalidade. O Brasil tem grandes possibilidades, ou seja, um mercado de consumo muito dinâmico.  Porém o ambiente no futuro imediato sugere precaução, o que requer evidentemente mais preparo por parte dos varejistas.

Antonio Corrêa de Lacerda
Professor-doutor do departamento de economia da PUCSP, membro do Conselho Superior de Economia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e do Conselho de Política Econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI)

Queda
Estamos tendo uma forte desaceleração da economia doméstica. Quando o Copom (Comitê de Política Monetária) decidiu reduzir a taxa básica de juros e sinalizar que ela continuaria em queda gerou uma grande discussão. De um lado, representantes do mercado financeiro aludindo uma improvável ingerência política na decisão. Do outro, muitos que, como eu, viram coerência e determinação na decisão correta.  O fato é que, interesses específicos à parte, o melhor mesmo para o País é adaptar rápida e antecipadamente o conjunto da política econômica para os “tempos bicudos” que se apresentam. É importante que haja previsibilidade, como querem alguns, nos movimentos das medidas econômicas, mas não podemos nos tornar reféns dela, nem mesmo torná-la instrumento de ganhos especulativos fáceis e sem risco, em detrimento do que é melhor para a Nação. Assim, fez muito bem o Banco Central do Brasil em considerar as novas circunstâncias, de uma economia internacional que está se deteriorando. É muito fácil criticar a decisão baseando-se unicamente nos indicadores passados. O difícil é perceber a dinâmica das variáveis e como elas impactarão os níveis de atividades, de preços e demais indicadores no futuro próximo. Especialmente nos momentos de grande transição como o que enfrentamos, isso se torna ainda mais desafiador e é preciso contar com boas análises e ousadia para tomar as decisões mais acertadas. Portanto, criticar a decisão de reduzir os juros com o argumento que a inflação acumulada nos últimos doze meses ultrapassou o teto de tolerância da meta, de 6,5%, é uma visão equivocada. Por varias razões: Primeiro, porque inflação elevada não é uma particularidade brasileira. O mundo viveu até recentemente uma pressão de elevação de preços. A inflação acumulada em 12 meses é de 6,4%, na China. Há ainda países com inflação mais elevada que a nossa, como a Índia, com 8,7%, a Rússia, com 9,4%, a Argentina, cuja inflação oficial é de 9,7% e a campeã Venezuela com 24%! Segundo, porque inflação em alta é um fenômeno com data marcada para terminar. Assim que o cenário de desaquecimento, talvez recessão, se consolidar em economias como EUA, Europa e Japão, que representam mais da metade do PIB mundial, os preços vão cair. Se no passado recente tivemos o efeito da pressão inflacionária internacional, a direção vai se inverter, com a desinflação vinda de fora. Terceiro, porque o nível de atividades da economia brasileira está em franca desaceleração e isso não se trata de um prognóstico. Basta verificar a evolução dos indicadores. O PIB brasileiro que vinha crescendo em doze meses a 9% no segundo trimestre do ano passado foi se desacelerando e subiu apenas 3,1% no segundo trimestre deste ano. Se ficarmos inertes, teremos uma recessão desnecessária à frente! Quarto: apesar da queda, continuamos no topo do “campeonato internacional de juros reais”, muito distantes do segundo colocado e, mais ainda, da média mundial. Ficar nesta posição, com o mundo desenvolvido em crise, significará, além da queda do PIB, valorização adicional da taxa de câmbio, desincentivo ao investimento produtivo e desperdício de recursos públicos para financiar a divida pública. Portanto, nos deixemos impressionar pelo chororô de alguns analistas e operadores do mercado financeiro que tentam desqualificar a decisão do BCB e intimidá-lo para os próximos passos. Os membros do Copom já demonstraram sua independência, não apenas em relação ao Governo, mas também e, principalmente, frente às pressões advindas de vozes nem sempre comprometidas com o interesse geral, mas segmentado.

Pode atrapalhar
A avaliação correta do cenário externo e seus impactos serão fundamentais para a mudança de rota na política econômica. Sim, temos que mudar, porque o panorama mudou. Não adianta ficar olhando o espelho retrovisor e repetir o erro cometido no início da crise, em 2008. Enquanto o mundo despencava, estávamos cá a aumentar os juros! Depois, demoramos muito para baixá-los e o fizemos muito lentamente.
Mas, também tivemos acertos importantes, como a expansão do financiamento público e liberalização dos empréstimos compulsórios retidos no Banco Central, que foi essencial para compensar a queda dos créditos internacionais. Os estímulos ao consumo com a redução de impostos também foram importantes. O governo foi bem na comunicação com a sociedade, o que manteve a confiança. O quanto vamos importar da crise internacional dependerá fundamentalmente da nossa capacidade de definir e adotar ações, algumas delas, fazendo-se justiça, muito bem conduzidas na crise de 2008/2009. Aquela era uma crise de crédito, a de agora é de outra natureza, mas que pode trazer efeitos parecidos. Diante de um para-brisa que denota um caminho nebuloso à vista é preciso rever rapidamente a estratégia, pois o piso é escorregadio e irregular.

Ações
Uma redução dos juros, propiciada pela queda da expectativa de inflação nos abriria muitas frentes. Primeiro, diminuiria a pressão de valorização do real. É bom lembrar, que passado o primeiro momento de desvalorização, a tendência de apreciação da nossa moeda deverá prevalecer. O cenário de manutenção de juros zero, recém anunciado pelo FED, vai continuar a estimular as operações de arbitragem (carry trade) e é bom reduzir a enorme distância que nos separa da taxa de juros média internacional, pois a guerra cambial vai se intensificar. O segundo beneficio da queda dos juros seria diminuir o custo de financiamento da dívida pública brasileira, que no acumulado dos últimos doze meses chegou a R$ 220 bilhões, representando mais de 5% do PIB. Em época de “vacas magras”, que precisamos diminuir os gastos públicos, está aí um item importante de redução. Este gasto representou mais ou menos o equivalente a nove vezes o volume de investimentos do Governo Federal! O terceiro aspecto é que juro mais baixo incentivaria a atividade. Até recentemente, o desafio brasileiro era desaquecer a economia. Agora, com a retração da economia mundial, teremos que preservar o mercado interno. Como a economia brasileira já vinha se desacelerando fortemente nos últimos meses, é crucial reverter o processo, senão o risco é de gerar uma recessão indesejada. O problema é que uma alteração de taxa de juros leva de seis a oito meses para afetar a atividade e a crise, neste ponto, nos pega na contramão, pois estamos com um nível de juros muito alto. É preciso interpretar corretamente os sinais e ousar nas políticas econômicas para aproveitar as oportunidades – e elas existem – mesmo em um cenário de crise.

Setor
O crescimento do emprego, da renda e do crédito tem impulsionado o comércio. A economia vai crescer menos, mas se o governo tomar as medidas certas continuará existindo demanda. A questão fundamental é conservar a confiança. Isso é o que fará com que consumidores e empresas mantenham a atividade.

Reinado Pedro Correa
Presidente do SINCOMAVI e Conselheiro da Associação do Comercial de São Paulo (ACSP)

Material de construção
O ano termina com um gostinho amargo na boca dos comerciantes. A expectativa era de contar com melhores resultados. Enquanto o varejo geral tem a previsão de fechar 2011 com um aumento de vendas da ordem de 4%, o setor de material de construção não deverá atingir os 3%. Isso é muito pouco para quem imaginava algo em torno de 6% no início do ano. Se por um lado o segmento contou com os benefícios da manutenção nos níveis de emprego e renda, por outro sofreu com o aumento excessivo de alguns itens, desabastecimento, queda na oferta de crédito e taxa de juros abusiva.

Mesma toada
O quadro que se apresenta para 2012 não deverá ser muito diferente. Não acredito que a crise será importada pelo Brasil, pois alguns dados importantes se mostram muito favoráveis, como elevação nos volumes exportados em razão das commodities, confiabilidade crescente do mercado internacional, queda na inflação e aumento dos investimentos. Tudo isso, sem dúvida, manterá a economia brasileira na rota certa. O varejo deverá se beneficiar e a previsão aponta para o nível atual de crescimento: entre 3% e 5%, inclusive material de construção.

Problemas
Logicamente não temos imunidade ao que ocorre com a economia do mundo. No entanto, acredito que os grandes desafios são de origem interna. O Governo Federal precisa ter mais agilidade em suas ações. Além de reduzir mais as taxas básicas de juros, é necessário ainda realizar cortes nos gastos e, principalmente, repensar a carga tributária. Não é possível mais postergar tal problema. Somente com a redução dos impostos será possível garantir uma estrutura saudável.

Atenção
Com os problemas que assombram o dia a dia de todo o comerciante fica difícil realizar tarefas básicas para o bom desempenho do negócio. No entanto, diante de um cenário de incertezas, tal trabalho não pode ser deixado em segundo plano. Recomendo aos empresários do setor a terem mais atenção com o planejamento e análise de dados da empresa. Muitas vezes, bastam apenas mais 15 minutos de trabalho para avaliar as informações que chegam de graça por meio do consumidor. Pense nisso.

 

 

 

 

Todo os direitos reservados: SINCOMAVI
Rua Boa Vista, 356 - 15ª andar - CEP 01014-910 - São Paulo - SP
Telefone: (11) 3488-8200 - sincomavi@sincomavi.org.br

Convênio Convenções Revista Fale Conosco